Páginas

18 de fev de 2011

30 dias de paganismo - Dia 01: Por que Ortodoxia Kemética?


Não é um caminho para todos. Tem um código de conduta rígido. Detalhes que devem ser seguidos à risca. É preciso estudar: história, mitologia, idioma.Viver a fé e não somente se rotular. Ter disciplina para continuar sozinho, mesmo estando em contato com pessoas do mundo todo. Trazer os deuses para a vida, compreender e aceitar que eles estão lá sim. 

Nada disso é fácil.E nos dias atuais, onde temos tanta facilidade à informação, fica bem menos difícil se cansar, achar outro caminho mais cômodo e deixar essa coisa pra lá. Mas por que eu não desisto? 6 anos sem desistir, apesar de tantas coisas que já aconteceram e de uma história de vida tão louca que por vezes me pergunto se não sou eu mesma a criação de um escritor insano se divertindo depois de se entorpecer.

O Egito sempre esteve em mim sem eu nem saber. De ver filmes antigos, documentários, desenhos, reportagens, de querer pirâmides. Aprender no colégio foi o gatilho que faltava. Ah, suspirava eu, o Egito! E ainda me vejo lá na biblioteca lendo de novo e de novo sobre tudo egípcio.

A Ortodoxia kemética veio para mim como um convite. Uma noite, Aset veio no meu sonho e disse que me esperava. Há muito procuro por você, disse a Senhora com o sorriso que só uma deusa possui. E eu, entre a estupefação e as lágrimas, só sabia olhar para ela.  Me procure, disse a Senhora, pois agora eu já achei você. 

Parafraseando uma pessoa querida, não se dá as costas a um deus. E há 7 anos eu parti numa busca que me levou a House of Netjer. 

Hoje me vejo fazendo tantas coisas, num eterno Zepi Tepi como Ra, que morre e renasce todos os dias. Porém, nunca estou fora do Kemetismo. Aprendo com meu Pai Seth sobre determinação, sorrio com o afago do meu Pai Khepera numa manhã fria. É minha mãe Aset que está lá me ensinando a ser mais mulher. É Heru-wer que me estimula nas minhas aventuras. Cozinho com meus ancestrais. 

Me maravilho com a humanidade trocando idéias com meus irmãos na fé,pessoas que dificilmente eu conheceria se não fosse o caminho que estou. Tenho planos, uma mente mais disciplinada, realizo. Não me saboto mais. Me dôo e me engrandeço como ser humano através dos meus atos de devoção. Não sou perfeita, mas tenho um exemplo para me guiar na tentativa: Ma’at. Tudo isso sem terrorismo, sem chantagens, sem preceitos que já vi e vejo em tantas outras religiões. Tudo depende de mim, das minhas ações. E assim sou mais confiante do que jamais fui antes.

Então, por que não ortodoxia kemética?

16 de fev de 2011

Convergência

Bem, amigos keméticos brazucas ou entendedores de português,

Fico feliz de conhece-los e/ou reencontrá-los. O blog aqui é, ouso dizer, vivo.

Sempre me perguntam sobre os keméticos brazucas, quantos somos, onde estamos...E agora, analisando, eu tive a chance de ter contato com todos os brazucas nestes 6 anos de House of Netjer. Quer fosse um oi, um e-mail, uma prosa na madrugada... E isso me deixa bem, porque lá estou em um dos pilares do Kemetismo: a comunidade. 

Então, povo, obrigada por me deixarem um pouco mais feliz e animada em continuar. Que estejamos em Ma'at, vivendo e celebrando a vida sempre em harmonia entre nós. Kheperu!

13 de fev de 2011

30 dias de paganismo

É interessante e divertido como as coisas se encaminham e acabam ocorrendo na minha vida.
Já tinha flertado com a ideia quando a Filhote de Lua comentou em seu blog, mas agora, depois que o Jotta e a Iony me seduziram, não resisti mais.
São 30 dias de postagens sobre o paganismo, no meu caso, sobre Ortodoxia Kemética.Não, não são consecutivos - até porque eu nem me aventuraria se fossem.

Este será o cronograma do meme:

Dia 01 - Por que Ortodoxia Kemética? 
Dia 02 - Crenças: Divindades
Dia 03 - Crenças: Ortodoxia x gnose pessoal
Dia 04 - Crenças: Datas Sagradas
Dia 05 - Crenças: Cosmogonia
Dia 06 - Crenças: Ma'at 
Dia 07 - Religião: Ritos de passagem
Dia 08 - Crenças: Perene Eternidade - O Duat
Dia 09 - Crenças:Ancestrais
Dia 10 - Crenças: Magia
Dia 11 - Práticas: Ritual
Dia 12 - Práticas: Prece
Dia 13 - Práticas: Altares
Dia 14 - Religião: Ser shemsu
Dia 15 - Panteão: Khepera
Dia 16 - Panteão: Set
Dia 17 - Panteão: Aset
Dia 18 - Panteão: Heru-wer
Dia 19 - Panteão: Todos os Nomes
Dia 20 - Comunidade
Dia 21 - Minha relação com praticantes de outras fés
Dia 22 - Caminhos que explorei e o que aprendi neles
Dia 23 - Todas e uma kemética
Dia 24 - Lágrimas de uma kemética
Dia 25 - Rindo à toa na Ortodoxia Kemética
Dia 26 - Estética Pessoal e Ortodoxia Kemética
Dia 27 - Tem uma kemética na família
Dia 28 - Meio ambiente
Dia 29 - O Futuro da Ortodoxia Kemética
Dia 30 - Aos buscadores...



Para acompanhar a série, basta buscar o marcador 30 dias de paganismo. Os posts vão aparecer em ordem (e viva a tecnologia!).

7 de fev de 2011

Mulheres

Em hotep!
Dentro do kemetismo não existe nenhum tipo de discriminação com relação a sexo, idade, cor de pele, orientação sexual, condição econômico-social etc. Querem prova maior do que a líder da religião ser mulher?
As histórias dos deuses nos mostram que as mulheres podiam exercer vários papéis. Por exemplo, Aset não é apenas uma rainha por ser casada com Wesir – em sua ausência, ela governou Kemet e, mesmo junto a Wesir, possui poder de decisão. Além disso, quando estava em busca de seu marido, trabalhou como serva de uma rainha e babá. Isto sem contar seu aspecto mais conhecido, o de maga. Outro caso é o de Sekhmet, que possui habilidades de guerreira tão boas quanto as de curandeira.  
É possível constatar através de papiros e manuscritos que juridicamente a mulher egípcia possuía paridade de direitos com os homens. As mulheres podiam ter profissões remuneradas (parteiras, sacerdotisas, dançarinas, governantas), negócios próprios (como tecelagem ou perfumarias), vender e comprar bens, libertar escravos e tinham direito sobre propriedades herdadas ou compradas. Por exemplo, em caso de falecimento do marido, tinham direito a 2/3 dos bens. Um fato curioso é que na Grécia – o berço da democracia - as mulheres não tinham tantos direitos quanto as mulheres de Kemet.
            Como a religião kemética (antiga e atual) baseia-se na questão dos ciclos, a fertilidade era muito valorizada. Desta forma, esperava-se que as mulheres fossem férteis e pudessem gerar muitos filhos – e não vamos esquecer que a fertilidade também era um símbolo de status social.  Quando uma mulher tornava-se mãe, de preferência no primeiro ano de seu casamento, ela ganhava mais respeito tanto da sociedade quanto de sua família. Mulheres estéreis não eram tão valorizadas socialmente, já que não podiam dar continuidade “legítima” a descendência de um homem, mas possuíam o direito de adotar crianças se desejassem.
            O casamento, apesar de ser visto como um compromisso a ser honrado, não envolvia cerimônia religiosa ou algum tipo de comemoração especial. A vida adulta, para uma mulher, era marcada por sua primeira menstruação por isso, geralmente se casava por volta dos 14 anos mais ou menos, embora tenham sido encontradas múmias de esposas com 10 anos de idade.  Não havia cobranças com relação a virgindade para o casamento, já que a sexualidade era estimulada e expressada – e muitas vezes vivida pelo casal antes mesmo do casamento. 

4 de fev de 2011

De quando eu visitei as Duas Terras

Recentemente pude ter o privilégio de visitar as Duas Terras. Não postei na época o que eu escrevi, e hoje achei aqui guardado!

Alexandria, Kemet

O lugar que eu mais esperei. Desde o dia que fiquei sabendo minha data e o navio. Eu ia visitar o lugar sagrado, as Duas Terras. Os dias foram passando e finalmente, finalmente, finalmente chegou o grande dia. O chato: duas colegas sem poder sair. Íamos sair Bispo e eu. 
Uns dias antes fui falar com a chefona.
Posso ter day off? Não. Dá pra ter mais horas livres? Não. Dá pra sair mais cedo? Não.
No fim ela liberou uma hora mais cedo todo mundo. Beleza. 1 da tarde, eu ia estar na rua. Impossível ir no Cairo visitar as piramides, 2 horas de viagem desde Alexandria, que merda. Mas tudo bem, essa visita fica pra outra ocasião.
1 da tarde eu pronta, pego a câmera com Ze e la vamos Ale e eu. Tinha que levar um documento lá da imigração que eles deram pra nos uma noite antes. Saímos, entramos no porto. E caralho. CARALHO.
O terminal eh absolutamente LINDO. Tudo em mármore e granito, esculturas, lustre em forma de piramide, e eh gigante, gigante.Gente, um absurdo de tao lindo aquele porto. No terminal encontramos o Luigi, o cozinheiro gato. Ele se juntou com a gente e lah fomos nos sair do porto e tentar descolar um taxi.
Na saída, infartei. Vaaaaaaaaaaarias lojas de souvenir com tudo, mas absolutamente tudo que se imagine. Fiquei louca, queria entrar lah na hora e levar tudo. TUDO. Continuamos a caminhar, achamos um taxi, combinamos um tour de 2 horas com o cara.
A cidade é um caos absoluto, muito suja. Se no Brasil a gente pensa no contraste do abismo social, gente, no Egito isso é muito mais acentuado.Aí vimos as mulheres de burka e caramba, elas usam até luva!!Horrendo e assustador, nossa. Chegamos na nossa primeira parade, o templo de Ptolomeu.
Paramos, tinha que pagar entrada e nisso ficamos zoando nos perguntando se tinha camisa de time de futebol do Egito e tal. Nisto, 3 caras ali pra entrar tambem chegam na gente, sao brasileiros jogadores de futebol!!!
Andamos com eles e quando eu entro no templo, as lagrimas. Puta merda. Eu tava lá
Olhei cada pedra, cada estatua, e aquele pilar gigante com a esfinge do lado. Eu tava lá de verdade, de verdade. Logo no inicio do caminho, uma estatua de Ramses II – meu monarca favorito! Reverenciei meu ancestral setiano e continuei o caminho. Fotos. Fotos e mais fotos. Hora de ir, nos despedimos dos jogadores de futebol e voltamos pro taxi. Proxima parada, anfiteatro romano.
Chegamos, mais uma entrada pra pagar. Entramos, uau. Mais fotos, o sol torrando, nao importava. Andamos em tudo, maravilhoso. Um sonho real, eu tocava nas pedras, maravilhada. Cada passo que eu dava meu sorriso so aumentava. Mais fotos, vambora.
Proxima parade, Biblioteca de Alexandria. Infelizmente, a nova, jah que a primeira foi destruida por um incêndio, a segunda por um terremoto. Iamos entrar, mas tava uma galera lá, iamos perder um tempo absurdo. Andamos por fora, o treco é gigante. Do lado de fora, uma puta estatua. Bonito demais! Fotos e mais fotos, hora de partir. Nisto eu ja estava com a pressao baixa, sem comer desde o café da manhã e andando que nem uma doida no sol. Avisei que precisava comer, decidimos comer no proximo ponto de parada.
O Forte de Alexandria, na outra extremidade da praia. E lá fomos nós, passamos pelo monumento ao soldado desconhecido. UAU. Chegamos enfim no forte. Na entrada da praia uma escultura linda de um escaravelho, mas nao deu pra tirar foto.
Comecamos a andar em direção ao forte, no caminho, varios vendedores ambulantes de souvenires. Fotos e mais fotos, a bateria da camera acaba. Comeco a ficar hipoglicemica. Estamos voltando pro taxi e aviso pro povo que nao dah mais, tenho que comer naquela hora ou vou desmaiar. Paramos num quiosque, compramos picole, chocolate, refrigerante e um bolinho. Comeco a comer o picolé, o resto enfio na bolsa e vamos pro taxi. O mundo volta a ter cores e estamos indo para a mesquita.
Chegamos na mesquite, uma menininha linda querendo vender tapete. Muito bonita e simpatica, amarrou minha pashmina na minha cabeca que nem o veu que elas usam. Fotos e mais fotos com a camera da Bispo.  Hora de ir, dou 5 euros pra menininha, ela me da um abraço. De volta ao porto.
O caminho é mega trash. Becos estranhos, umas lojas de pneus, desmanche de carros. o Gato tem que estar de volta as 4:30 no trabalho. Voamos e chegamos no porto, Gato sai correndo e se vai pro barco, Bispo e eu vamos para as lojinhas de souvenir.
Fiquei absolutamente pobre, na miséria.Até as moedas eu contei. Achei a encomenda do Ruizão, tá aqui guardada. Comprei tudo o que deu e ainda por cima foi pouco, saí desesperada porque não comprei o suficiente, queria aquelas bijouterias, roupas, enfeites pra casa, pratarias, tapetes, papiros gigantes, estatuas, aaaaaaaahhh… Cheguei no barco, peguei mais $ com minha amiga e comprei mais umas coisinhas. Voltei, desolada. Queria mais, não foi o bastante.
Morfei, fui trabalhar. Feliz, feliz mas absolutamente triste. Meu coração ficou no Egito. Kemet é meu lugar.
De noite, quando o barco ia sair, fui para a proa e descobri que Alexandria tem um farol. Não é, certamente como o da Antiguidade, mas aí fiquei lá olhando, olhando. O barco comecou a se mover e eu lá, olhando praquele céu. 
E eu chorei, chorei e agradeci.
Lembrei do meu pai, do meu Homem Grande, da Iony, do povo da HON, do meu irmão, do magrelo… O barco partia e eu chorava, fazendo uma prece olhando praquele céu de estrelas estranhas e antigas. Mais um dia, menos um dia.