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13 de mar de 2013

30 dias de paganismo – Dia 05: Cosmogonia

   Uma das principais dificuldades para quem começa a estudar sobre mitologia egípcia é justamente compreender a cosmogonia.Afinal, não há uma linearidade como a que vemos, por exemplo, nos mitos gregos. As fontes são diversas, as divindades mudam e os próprios conceitos de criação, também.
    As principais cosmogonias que encontramos referência são as das cidades de Heliópolis, Tebas, Hermópolis e Mênfis.Todas diferem entre si e ao mesmo tempo possuem elementos em comum. Um dos pontos em comum é que a criação tem início nas águas de Nun, o oceano primordial. Daí surge o Netjeru que inicia o processo de criação com dois novos elementos (terra e céu por exemplo) das maneiras mais variadas possíveis. Cada um dos novos elementos criados é também um Netjeru ou Netjeret, que juntos criam mais dois novos Netjeru/elementos e assim sucessivamente até chegarmos aos humanos. Em alguns mitos, Ptah criou os humanos, já em outros foi Khnum, em outros foi Ra.
    O que é preciso ter em mente, para não pirar de vez quando se começa a pensar nas diferentes cosmogonias é que elas variam em função de geografia e período de tempo. A história nos mostra que por momentos elas até foram contemporâneas umas das outras. Porém, é preciso diferenciar a maneira como encaramos isso hoje, com a visão do todo, com a da época do Egito Antigo, onde existiam restrições espaço-temporais.
     Atualmente abrimos um livro de história e lá está toda a linha de tempo do Egito desde o início até a Primavera Árabe de 2011 com nomes, datas, locais e fatos – mas isso não ocorria com os antigos da mesma forma. Este apanhado de informações que os livros nos mostram estava sendo vivido por eles na época ou então nem tinha acontecido ainda. E outra: as diferenças tecnológicas de acesso à informação nem se comparam.
   Como eu disse, houve momentos em que diferentes cosmogonias foram contemporâneas. Mas, diferentemente do que se possa pensar em um primeiro instante, haja vista tantos conflitos religiosos, os egípcios as encaravam de um modo bem peculiar. Para eles, todas as cosmogonias são verdadeiras. Os conflitos religiosos que temos registro em sua maioria tiveram como pano de fundo transições políticas (como o caso das tranformações de estátuas de Seth em Amun, por exemplo).
   Então é isso mesmo: todas as cosmogonias são verdadeiras – e é assim que encaramos hoje. A cosmogonia dentro da ortodoxia kemética trabalha com lógica polivalente e sem henoteísmo – ou seja, todos os pontos de vista são válidos e não temos uma divindade superior às outras. Por isso, tanto o ciclo de criação de Ptah quanto de Ra, por exemplo, embora originados de locais e épocas diferentes são aceitos.
  Mente aberta, para ser kemético ortodoxo, como se vê, é praticamente obrigatório. Se por algum motivo alguém não assimila a lógica polivalente, fica muito difícil se sintonizar e se achar, principalmente nesta parte mais ampla de cosmogonia. Sabem o lema de magia do Caos, “nada é verdadeiro, tudo é permitido” ? Para começar com cosmogonia, é mais ou menos por aí...