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1 de mar de 2015

Sobre Êxodo: Deuses (?) e Reis - parte II

    (prosseguindo)
          O hebreu mais famoso do filme, Moisés, é um misto de vários personagens do Cristian Bale. Uma leitura rápida dá pra ver que ele grita enlouquecido e fanático como o John Connors, usa seus conhecimentos de luta (e a roupa preta) como o Batman, delira como o personagem de O Operário. É um Moisés meio doido, meio inconformado com sua vida, mas que a atuação do Bale não convence o suficiente. Outro ponto é que lá pelo meio do filme fica-se sabendo de onde ele surgiu porque a apresentação dos personagens simplesmente não existe. Eles vão surgindo na tela enquanto a gente assiste e é isso aí, coma mais pipoca e vá tentando descobrir quem é quem.

     Bom, visualmente, o filme não deixa nada a desejar. Os efeitos são ótimos, e a parte das pragas ficou ótima. Os cenários internos e externos, idem. A travessia do Mar Vermelho não decepciona nos efeitos, embora seja um misto de fenômeno natural com ação divina – e pra mim foi uma boa ideia. Muita licença poética, evidentemente, para montar a cena e a derrocada dos egípcios, mas o resultado ficou bem legal.


    O título do filme fala de Deuses. Curiosamente, na sociedade politeísta egípcia do filme aparece... UMA sacerdotisa de Sekhmet. Não se veem muitas estátuas ou objetos sagrados, as pessoas não falam nos deuses, não há referência alguma da vida religiosa das pessoas, quer da corte ou não. Em nada. 
     Lá pelas tantas surge um adivinho fazendo uma participação, mas nada além disso. A figura religiosa é só da sacerdotisa que conduz oferendas e adivinhações, inclusive dentro do Rio Nilo. Para Sekhmet, não para nenhuma divindade que tenha a ver com as águas. Para se ter ideia, nem Yinepu (Anúbis) apareceu, e olha que qualquer coisa que mostre Egito mostra Ele, hein. Deuses onde e para quê?!  
Imagem autoexplicativa.
     Bom, como pessoa que curte uma boa história e cinema, digo que esse filme foi um dos maiores desperdícios de dinheiro (e tempo) da história. Interpretações discutíveis em um elenco fraquíssimo e que ainda tem o agravante de não colocar NENHUMA pessoa de pele mais escura em papéis de comando ou destaque. Os mais escuros, como sempre, são subalternos, escravos, aquela coisa toda. Vejam que estou falando de pele mais escura, não necessariamente negros, porque estes, nem vou entrar no mérito. Enfim, se você espera ver um filme daquele Ridley Scott de Gladiador, Alien e Blade Runner, salve seu tempo e deixe passar o filme na TV aberta.
     Agora, falando como kemética ortodoxa, a palavra é vergonha. Custava um pouquinho de pesquisa? Olha, nem precisava muito, só assim, uma olhadinha no Google já ajudava. Ler um livro, podia até ser um de escola, falando sobre os diferentes momentos da história de Kemet faria uma diferença absurda.  Que tal inventar um outro rei qualquer sem caracterização com um ator oriental mas deixar o Ramsés II(AUS) quieto? Uma abaixadinha no coitadismo hebraico, de leve (bem de leve mesmo), que tal?

     Eu entendo que é um filme de ficção e não um documentário, mas só estas quatro coisas já deixariam o filme mais passável e com um fator de rejeição menor – vide o bafafá em vários lugares que proibiram a execução do filme. Temos tantos recursos hoje em dia que é inconcebível apresentar um show de horrores como esse filme e ainda colocar seu nome nele, senhor Ridley Scott. Estudar o passado para compreender melhor o presente e nós mesmos não é supérfluo, mas essencial. Falar de deuses e reis, com propriedade, é reverencia-los e exalta-los em cada um de nós. Infelizmente, seu filme bem longe desse caminho. 
     A mim, resta respirar fundo, praguejar o seu nome, Ridley Scott, e rir, quando me perguntarem pela enésima vez o que Ramsés II (AUS) teve a ver com a construção das pirâmides.

25 de fev de 2015

Sobre Êxodo: Deuses (?) e Reis.

     Depois de muito resistir, fui assistir a “Exôdo: Deuses e Reis”. Minha resistência se deu porque este é um momento bíblico que sempre gera muita polêmica (e filmes: os 10 mandamentos e O Príncipe do Egito para citar alguns). Mas, a maior de todas as motivações que sempre acaba amolecendo minhas barreiras foi “como vou ter uma opinião se eu não assistir?” Assim, lá fui eu, bem acompanhada de uma amiga – que coincidentemente é historiadora – rumo a algumas horas de experiência cinematográfica.
     Eu sei, eu sei, você que está me lendo está se roendo, mas acredite, eu mesma estou me roendo para ver o que eu escrevo. Notadamente, por eu ser setiana, esperam-se algumas vociferadas – ok, um monte delas. Sim, elas vem, mas por enquanto estou tentando (e muito, acredite) não transformar este texto numa avalanche de letras maiúsculas e imprecações ao Ridley Scott e Cia ltda.  E lá vamos nós.

     Falar do erro étnico de colocar um ator com traços puxando para orientais para interpretar Ramsés, o filho de Seti I (AUS) interpretado por John Turturro (sério, é o mesmo John Turturro malucaço de outros papéis) são 2 erros em uma só frase.
     Ramsés II (AUS) era ruivo, orgulhosamente ruivo e teve uma vida longa e próspera em Kemet - e clique aqui, se quiser vê-lo como realmente era. Ele foi um dos maiores governantes que já existiram e sua época é simplesmente uma era de ouro incomparável na história de Kemet. Caracterizá-lo como mimadinho do papai, indolente, incapaz, sujeito a manipulações políticas, atos de barbárie pode até ser uma licença poética.
     É uma licença complexa, é verdade, já que tudo que ficamos sabendo sobre Ramsés II (AUS) nos diz que ele era o oposto de tudo isso. Porém o que chegou até nós foi tudo escrito pelos egípcios e bom, ninguém vai fazer propaganda negativa sobre seu rei, não é? Tá, eu sei, a não ser Akhenaton, mas aí é outra situação. Indo mais além, colocar Ramsés II (AUS) na época que os hebreus estavam escravizados construindo pirâmides é como afirmar que a Inconfidência Mineira e a construção de Brasília aconteciam simultaneamente.  Ou que o rei Leônidas de Esparta jogava God of War no seu Playstation: um abismo histórico.
      Aí vamos ao figurino. Ouro e joias lindíssimas de ficar babando? Presente. Roupas de linho? Presente. Moisés (e não só ele, detalhe) de armadura preta dentro de fora do campo de batalha? Presente. Isso mesmo, armadura preta no Egito. 
À esquerda, armadura do rei, tipicamente egípcia.
 À direita, a armadura escura de Moisés.

Inclusive  esta armadura (toda ou em parte) é usada dentro do palácio, no meio de todo mundo usando suas túnicas de linho. Sim, eu sei que ele no filme é um comandante militar, mas ele também é o filho adotivo do rei. Ele não é um soldado tirando guarda, ele é um príncipe. Príncipe, destes que tem joia, coroa, tecidos finos, anéis, guarda pessoal, aposentos enormes, luxo e poder, sabe? Ele não é um jagunço perambulando armado o tempo todo do lado do seu coronel, pessoa que montou o figurino do filme! Por favor, pesquise, pessoa que montou o figurino!

     Ok, pausa. Respiração.
    
    Prosseguindo, uma pergunta. O que a Sigourney Weaver foi fazer lá? Se tivesse um alien, eu entenderia, mas no mais ela só apareceu para ostentar ouro e fazer fofoca com o rei egípcio-oriental-careca-mimadinho (porque me recuso a chamar de Ramsés aquela criatura, é uma ofensa ao verdadeiro).


    Falando sobre os hebreus, a caracterização de Javé, seu Deus, foi perfeita. Estou falando sério aqui, de verdade. Já li muito sobre o cristianismo e religiões abrâmicas, e nunca, nunca tinha visto ninguém ter um insight que captasse tão bem a essência do Senhor dos Exércitos: Javé é uma criança! 



     Moisés o questiona, Javé responde “porque eu quero”. Moisés diz que precisa de tempo para que as coisas aconteçam, Javé responde “Não, agora vamos fazer as coisas do meu jeito porque não quero esperar”. Moisés argumenta que as pragas prejudicam a todos, não só os egípcios, Javé responde que é assim que ele vai fazer e pronto. Ora, quem se comporta assim não são as crianças? Nada de homem de idade, cabelos brancos e barba longa com voz de trovão.  O que temos é um menino intempestivo de olhos intensos, magrinho e aparentando não mais que 10 anos. Se você ler o Antigo Testamento fica fácil, muito mais fácil de compreender a série de exigências, leis, situações e afins que Javé faz o tempo todo se pensarmos nele como um menino. 

(continua)